Editor de Barrelas admite publicar meias-verdades

“No Diário de Barrelas, tentamos explicar a realidade por meio de meias-verdades. Ou meias-mentiras, se preferir.”

Editorial

Está na natureza do ser humano querer explicar as coisas ao seu redor. É incrível como sempre queremos descobrir como a mágica é feita, mesmo sabendo que ao desvendar o truque e desnudar a realidade, ali também terminará o encanto proporcionado pela ilusão. O jornalismo pode ser entendido como a explicação diária da nossa realidade, seja por palavras, sons ou imagens. O jornalismo que se baseia apenas na verdade, desvenda a mágica e põe fim ao encanto de poder rir de nossas próprias mazelas. No Diário de Barrelas, tentamos explicar a realidade por meio de meias-verdades. Ou meias-mentiras, se preferir.

Mentir não é ruim, muitas das vezes mentiras são benéficas. Seja para ajudar alguém, seja para salvar nossa própria pele. Mentir faz bem por que nossa vida fica muito complicada se apenas falarmos a verdade. Se você está atrasado para um compromisso e avisa que dormiu demais, você provavelmente terá uma enorme dor de cabeça. A vida será mais agradável para todos se você contar uma mentira e falar que o trânsito estava infernal.

Esse Dia da Mentira me fez lembrar um caso de quando eu ainda era criança – e vocês sabem como as crianças são sinceras. Eu estava no clube, junto com minha mãe, meus irmãos e uma amiga da minha irmã mais velha. Eu tinha uns 8 anos e essa amiga da minha irmã já dava seus primeiros sinais de adolescência, talvez com 13 ou 14 anos. “Mãe, ela tem bigode!”, gritei eu, em volume suficiente para que todos num raio de dez metros pudessem ouvir. Minha mãe me puxou de lado e mandou que eu ficasse quieto.

Ao chegar em casa, minha mãe contou o ocorrido para o meu pai. Aí veio o discurso. “Meu filho, você precisa entender que mentir é feio, mas nem sempre é bom falar a verdade. Se você um dia conhecer uma mulher muito feia, não adianta você querer dizer que ela é bonita. Ela sabe que é feia. Também não adianta você ser sincero. Neste caso, tanto dizer que é bonita quanto dizer que é feia pode soar como algo ruim”, disse ele em sua sabedoria, com um ótimo exemplo de como mentira e verdade caminham de mãos juntas. “Diga só que ela é simpática.”

No Diário de Barrelas você leitor encontra todo tipo de mentira sobre qualquer assunto. Evitamos temas como morte, bruxaria, certos tipos de misticismo e coisas que não existem nem nunca existiram, como mula sem cabeça, saci-pererê, Super Homem ou dinossauros. Também evitamos palavras de baixo calão. Dificilmente você verá palavras como buceta, caralho, chola ou travesti em uma de nossas páginas. Erros de grafia e imprecisões históricas estão permitidas porque, afinal de contas, nós não somos a Wikipédia. Aquilo é chato e pra piorar, tá cheio de gente querendo provar que sabe mais que o outro. Aqui em Barrelas é quase tudo mentira e as mulheres são todas simpáticas, com ou sem Photoshop, o Deus de todas as mentiras.

No Brasil, um marco do Dia da Mentira é a publicação do jornal “A Mentira”, lançado em 1º de abril de 1848, em Minas Gerais. Sua primeira manchete trazia o falecimento de Dom Pedro, desmentida logo no dia 2. O Diário de Barrelas segue essa tradição, mas não de forma esporádica, a sacanagem jornalística está nas nossas veias.

Nós somos uma equipe formada por um punhado de babacas que se inspiram diariamente em Orson Welles, um sujeito que um dia chegou na rádio onde trabalhava e resolveu ler uma história de um livro que falava sobre uma invasão alienígena aos Estados Unidos. Fez isso com tanta emoção, que acabou convencendo muita gente de que a Terra realmente estava sendo tomada por seres de outro planeta.

A gente faz isso todo dia, esperando que você fique bravo porque o NX Zero vai abrir o show do Metallica, que você fique feliz porque a Playboy vai fazer um recall da revista da Tessália, que você toque uma porque a Geyse Arruda fez um ensaio sensual nos Alpes suíços, e se empolgue porque o povo finalmente tirou a bunda do sofá de casa e saiu às ruas para lutar por aquilo que realmente vale a pena ver de novo: um Big Brother Eterno.

Em uma data como a de hoje o Diário de Barrelas não vai noticiar que espaguete cresce em árvores ou que vimos pingüins voando na Marginal Tietê. Que idiota iria acreditar nisso, logo hoje? A gente quer é que os idiotas acreditem em coisas piores, sem perceber como isso alegra suas vidas.

É muito fácil dedicar um dia do ano para criar notícias semi-engraçadas. Estamos aqui para diariamente queimar nossos neurônios para pregar peças em você leitor, 24 horas por dia, 364 dias por ano.